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Report on InterpretAmerica 2011 in Washington in June

Tereza d'Avila Braga

“Interpreters will never be replaced by technology, but they will be replaced by colleagues who are more tech-savvy”

Technology dominated the two days of presentations on June 17-18 at InterpretAmerica, the neInterpretAmericaw forum for interpreters spearheaded by Barry Olsen and Katharine Allen, both faculty members at MIIS. It was emphasized that machine translation heightens awareness about language transfer, therefore it widens (instead of narrowing) the market for human translation. Also, technology is not here to replace human work but to address increasingly relevant issues involving our work as interpreters, such as speed and quality.

It was my first time at this event and I was pleasantly impressed. To represent Portuguese Gio Lester was there, as well as our administrator Elena Langdon, Cristiano Mazzei, Tatiana Carajilescov, Camila Januário, Sheyla Carvalho (OAS), Ewandro Magalhães (Geneva) e Marsel de Souza (Brasília). Gio Lester was one of ten moderators leading a workgroup called “Professional Identity: Rolling Up Our Sleeves”, which was a whole afternoon working in groups and listing key issues and recommendations for the profession. Ewandro moderated a plenary panel entitled “Interpreting and Technology: Who Will Be in the Driver’s Seat?”

I specially enjoyed insights from Bill Wood, one of the panelists and founder of Design Specialists Interpretation. For instance, “Your product is not what comes out of your mouth, but what comes into the audience’s ears”. It reminded me of a conference I attended in Buenos Aires once. To have the customer’s experience, I decided to wire myself and listen in. The first interpreter was excellent, but I could not stand his voice for more than five minutes - it was like listening to a robot! And the constant ‘um’s...! When his partner took over, I quickly put my earpiece back on. Her overhang (delay) compared poorly, but she was also on top of the subject matter. Most importantly, and to my relief, she talked like a human, with intonation, pitch and tone, thank you!

Another pearl from Bill hit me directly on my lazy bone: “If you have any pride in your work, you should want to listen to yourself; it’s your product!” How many of us take the time to record our voice and listen to it when we get home from a gig? It reminded me of Hank Phillips, one of my early mentors, carrying a tiny recorder every time he entered the booth.

The organizers emphasized that we are a small profession, and very fragmented. They believe we should come together in order to create criticaTereza Bragal mass and have a single voice as interpreters, with a conscious effort to embrace new knowledge and new technology.

The line-up was impressive and I suggest clicking them online, since I only covered the bare bones here.

A highlight for me was the various equipment providers offering demos, brainstorming with us in the workgroups and speaking from the podium. We had state-of-the-art conference microphones at every seat, fully assembled booths lined up and all kinds of portable equipment for hands-on playtime. I took turns interpreting (and laughing), sharing the booth with a Mandarin stranger and asking Portuguese colleagues to listen in from their seats. Great fun.

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Ressucitar para Memória

Thelma L. Sabim

O que fazer com aqueles arquivos preciosos traduzidos há anos, quando a única ferramenta era “apenas” o processador de texto? Vale a pena ressuscitar alguns para criar memória?

Claro que tempo x benefício é determinante. Se o arquivo recebido do cliente estiver em formato eletrônico, ficará mais fácil. Basta fazer o alinhamento com a tradução e nasce uma memória! E se o original veio em formato PDF? Daí é um pouco mais complicado, mas se realmente o material for importante para consulta em novos projetos, o jeito é passar o PDF pelo Nuance OmniPage ou ABBYY FineReader. Com alguns ajustes e consertos no que resultar do OCR, dá para criar um bom documento fonte para o alinhamento, sobretudo se gravado como texto simples.

Algumas CATs oferecem a função de alinhamento, mas geralmente é um processo demorado e desestimulador. Fiz um teste com o Stingray Document Aligner da MaxPrograms, uma empresa sediada no Uruguai. Gostei da simplicidade e por ser cross-platform. A licença custa 70 Euros - http://www.maxprograms.com - um preço bem acessível comparado ao de uma outra ferramenta, o Align Factory Light da Terminotix, que custa 420 dólares. No site http://terminotix.com há outras opções apenas para fazer alinhamento, mas nunca experimentei, inclusive um alinhador grátis on-line, o YouAlign.

Para quem não quer investir muito e não está contente com a função de alinhamento da sua CAT, há outras opções gratuitas para criar TMX, o padrão utilizado pelas diversas CATs para tornar os arquivos de memórias compatíveis.

Uma delas é o Rainbow, um dos aplicativos do Okapi FrameWork criado originalmente pela Enlaso – ver http://www.opentag.com/okapi/wiki/. Embora a função de alinhar frases do Rainbow não seja fácil de usar, gostaria de destacar outros recursos muito úteis que já usei como extrair texto para tradução de arquivos de diversos formatos, como rtf,  html, xml, php, properties do Java. Ainda há outros recursos que quero aprender como pseudo-tradução e comparação de tradução.

Para a função de alinhamento do Rainbow, chamada Sentence Alignment, os documentos devem ser primeiro convertidos para o formato do OpenOffice, ou seja .odt, senão o Rainbow não gerará a memória. É preciso dedicar tempo para aprender todos os passos deste procedimento.

Outra opção de alinhamento se chama Bitext2tmx. Ela pode ser baixada do Sourceforge, http://bitext2tmx.sourceforge.net/

Porém, o texto original e a tradução devem ser convertidos em formato txt primeiro. Esta ferramenta é bem básica.

Outras ferramentas importantes que agilizam o uso das TMs são os editores de memória. Uma delas, que está em processo de atualização, é o Olifant. O site http://sourceforge.net/projects/okapi/files/ oferece a versão de 2009. A nova versão revisada deverá ser liberada até o final do ano. O recurso que mais utilizo do Olifant é o de remover códigos de formatação das TMs para aumentar os "matches". Pelo que li no site dos usuários do Okapi, o Olifant vai funcionar também em outras plataformas - no momento é só no Windows.

Outra ferramenta que é indispensável quando lidamos com memória é o ApSic Xbench, que funciona no Windows e é gratuita. Usei algumas vezes o recurso de converter TMs e sugiro aos colegas uma visita ao site http://www.apsic.com.

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Da Interpretação Médica

Por Lilian Jimenéz-Ramsey

Quando fui abordada pelo nosso querido editor, Henrique Levin, para escrever um artigo “due yesterday” só não caí do cavalo porque estava caminhando rumo à caixa de correios. Esse tipo de “convite”, ironicamente, causa um misto de pavor e orgulho (ainda não descobri a origem deste último sentimento) que evolui em poucos minutos para um total estado de pânico, principalmente depois de desligar o telefone. Imediatamente, a realidade bateu à porta com o fatídico "e agora, José?" Ah, agora é que são elas! “Tu com a tua petulante e infundada onipotência que sempre pula à frente de reações mais racionais!” Ou será o espírito caritativo que as freiras Carmelitas instilaram em mim desde tenra idade? Sei lá, ainda não cheguei a nenhuma conclusão, mas o tempo passa e palavra é palavra. Afinal de contas, trata-se do meu compadre (por implante artificial), e compadre é sagrado, pelo menos lá na Província Cisplatina, quer dizer, no Rio Grande do Sul, que por sinal, tchê,... Bom, deixa pra lá. Isto até parece papo furado.

E assim, deambulando por esses corredores do uso da língua, chego ao da interpretação médica e me deparo com uma realidade transformadora para quem se dedica a esse ofício neste país. Fala-se de "certificação nacional" (national certification) para os intérpretes da área da saúde. O assunto está na boca do povo, só se fala nisso nos círculos pertinentes. E não poderia ser de outra forma. Afinal, a crescente diversificação da população americana reflete-se nos vários setores do país e na necessidade de adaptar os serviços que cada um deles oferece a clientes ou pacientes visando resultados de alta qualidade. No setor da saúde, o governo estabeleceu que o atendimento médico deve focar o paciente (patient-centered care) e levar em conta as suas diferenças culturais e linguísticas (culturally and linguistically appropriate care).

Esta terminologia não é de hoje. O acrônimo CLAS (Culturally and Linguistically Appropriate Services) define o padrão nacional de assistência médica para organizações médicas elaborado pela Joint Commission e emitido pelo Office of Minority Health (OMH) do Department of Health & Human Services (DHHS) dos Estados Unidos em dezembro de 2000. Dos catorze padrões enumerados nesse documento, os de números 1 a 3 referem-se à competência cultural; os de 4 a 7, ao acesso ao idioma e de 8 ao 14, referem-se a apoios organizacionais à competência cultural. Exceto os padrões 4, 5, 6 e 7, que têm força de lei (mandates), os demais são diretrizes (guidelines). Contudo, as organizações de saúde têm o maior interesse em obedecer aos referidos padrões porque do seu cumprimento depende serem entidades reconhecidas (accredited) ou não pela Joint Commission e, por conseguinte, se qualificarem para receber ajuda financeira do governo federal.

A expressão “patient-centered care” já vinha sendo utilizada há muitos anos, mas foi revitalizada no artigo Crossing the Quality Chasm, publicado pelo Institute of Medicine (IOM) em 2001. O principal assunto abordado foi a disparidade no acesso à saúde (health access disparities) por minorias raciais e étnicas no país, concluindo que a qualidade do atendimento médico depende de seis fatores chave, sendo um deles a centralização dos serviços no paciente (patient-centeredness). Dos demais fatores–eficiência (efficiency), efetividade ou eficácia (effectiveness), segurança (safety), serviço oportuno (timeliness) e equidade (equity)–, a equidade é alcançada prestando serviços de saúde de qualidade, independentemente das características pessoais, de origem e socioeconômicas do paciente.

Desprendem-se dessas diretrizes os conceitos de “proficiência linguística” (linguistic proficiency) e “competência cultural” (cultural competence). Conceitos intimamente relacionados com a função do intérprete médico, peça fundamental da tríade (triadic encounter) que constitui, juntamente com o paciente e o profissional de saúde, a unidade comunicativa que tem por objetivo primordial garantir a saúde e o bem-estar dos pacientes com limitada proficiência na língua inglesa (Limited English Proficiency - LEP).

Mas, quem é esse intérprete que trabalha na área da saúde? Além de ser fluente nos dois idiomas de trabalho, deve ser capacitado e qualificado para o desempenho de algumas modalidades de interpretação: consecutiva (consecutive), simultânea (simultaneous) e tradução à vista do texto escrito (sight translation)] e entender ambas as culturas para poder atuar como mediador cultural (cultural broker/mediator) ou defensor (advocate) do paciente quando for o caso. Deve saber como manejar a dinâmica da consulta ou comunicação oral com técnicas específicas que garantam a transparência do intercâmbio de ideias entre as partes e propiciem uma relação de entendimento e confiança (rapport) entre o paciente e o profissional de saúde (health care provider) e a instituição que representa.

Mas tudo isso de nada serviria se o intérprete médico não tiver conhecimento da terminologia médica, de anatomia e fisiologia humanas, sintomatologia, doenças, tratamentos e procedimentos médicos, etc., ou se não conhecer como funciona o sistema de saúde nos Estados Unidos. Essas são algumas das pautas que representam a bagagem de conhecimentos que o intérprete médico deverá possuir para representar com fidelidade a sua profissão. Da mesma forma, servirá para demonstrar que está apto para assumir a carreira quando passar as provas de certificação nacional oferecidas pelo National Board  of Certification for Medical Interpreters (NBCMI) ou pela Certification Commission for Healthcare Interpreters (CCHI), dois grupos engajados na defesa da profissionalização do intérprete médico neste país.

Não estranharia se o ano de 2010 for reconhecido como o ano da interpretação médica. As pessoas que por muito tempo se dedicaram a esta ocupação finalmente poderão colher os frutos do seu esforço ao serem reconhecidas como profissionais da área com certificação reconhecida em todo o território nacional. O segundo passo será iniciar um movimento de reivindicação de tarifas condizentes com a sua formação, mas até lá fica meus parabéns às organizações que propiciaram a concretização desta realidade

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Entrevista com Marcílio Moreira de Castro

Interviewed by Naomi Sutcliffe de Moraes

1.  Oi Marcílio, antes de começLançamento Dicionário Marcílio Moreira de Castoar a falar sobre o dicionário propriamente dito, você poderia contar sobre sua formação em direito/economia/contabilidade?

Sou formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Sempre gostei de Direito Econômico e Direito Tributário, por isso o interesse também por Economia e Contabilidade. Após realizar um estágio na Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, resolvi aprofundar os estudos em Economia.

Além disso, um conhecimento profundo de Economia e Contabilidade é essencial para o tradutor jurídico, especialmente em trabalhos envolvendo Direito Tributário, Direito Concorrencial, Direito Societário, falência e outros.

2. Quando começou seu envolvimento com tradução/interpretação de idiomas?

Comecei a traduzir no primeiro semestre da Faculdade de Direito, em 1999. Minha iniciação ocorreu em razão de um e-mail que escrevi para o Danilo Nogueira. Apresentei-me e pedi ajuda para entrar no mercado de tradução jurídica. Sem seu auxílio e seu incentivo, eu talvez não tivesse prosseguido na profissão.

Sempre gostei muito de estudar inglês e, desde o início da faculdade de Direito, estava convencido de que gostaria de realizar um estudo jurídico bilíngue e me especializar em cooperação jurídica internacional e tradução de textos jurídicos.

3. E a ideia de criar o dicionário?  Quanto tempo levou para a coisa tomar rumo, se concretizar? Você trabalhou sozinho ou com a ajuda de colegas?

No início, não pensava em escrever um dicionário. O que fazia era estudar as disciplinas jurídicas na faculdade e simultaneamente ler livros das disciplinas correspondentes nos EUA. Por exemplo, lia na faculdade o livro do Fábio Ulhoa Coelho, o clássico Direito Comercial. E ao mesmo tempo lia em casa o livro ‘The Law of Corporations’, de Robert Hamilton.

O método seguido foi o da comparação. Lia uma expressão no livro em português, anotava em um rascunho. Ao me deparar com a expressão correspondente no livro americano, transcrevia para outro arquivo e citava a referência.

E foi assim durante todo o curso. Por isso o Dicionário é tão abrangente, pois cobri todas as disciplinas estudadas na faculdade, desde Direito de Família, passando por Direito Tributário, Societário, Comercial, Constitucional e assim por diante.

E isso me ajudava bastante nas traduções. Ao realizar esse estudo, ganhava não só velocidade de trabalho, mas também confiança sobre quais termos e expressões utilizar.

Realizei este trabalho sozinho. No início, não pensava em vender. Só comecei a comercializá-lo em 2007, pois muitas pessoas começaram a pedir cópias da obra.

Outro fator que me encorajou a realizar esta pesquisa foi a ausência de obras similares no mercado. Os dicionários então existentes eram apenas apanhados de termos, falhavam ao não traduzir expressões e não citavam referências bibliográficas.

Esse foi outro aspecto que sempre busquei seguir: citação de referências bibliográficas. Na Faculdade de Direito, os professores tiram pontos do aluno sempre que ele não cita a bibliografia ou seus fundamentos em testes e trabalhos. Busquei seguir este modelo, pois o embasamento em referências bibliográficas é fundamental para conferir credibilidade a qualquer estudo acadêmico ou prático.

Quanto ao tempo para concretizar o trabalho, até agora são 11 anos. Mas ainda não terminei. E nunca vou terminar, pois de fato é impossível terminar um dicionário.

4. Como decidiu quais termos incluir no dicionário?

Sempre busquei ser coerente na escolha dos termos. Evitava aquilo que não fosse relacionado com o Direito, Economia e Contabilidade. Mas tudo que se enquadrasse nestas ciências, eu acrescentava à obra. Mesmo que parecesse desnecessário, pois poderia ser útil em alguma tradução no futuro.

5. Daria para você nos falar sobre os recursos utilizados na coleta da terminologia?

Minhas principais referências são livros e meus próprios trabalhos. Uma ótima ferramenta é o site amazon.com. Sem esse site, teria sido bastante difícil para eu adquirir toda a bibliografia estrangeira utilizada.

Vou dar um exemplo de escolha de bibliografia. No estudo de Economia, busquei o melhor livro existente no Brasil, um manual que fosse a ‘bíblia’ das Universidades de Economia. Esta obra é o famoso ‘Manual de Economia dos Professores da USP’.

E o melhor manual de Economia em inglês, e talvez em todo o mundo, é o famoso ‘Principles of Economics” de Gregory Mankiw. Basta uma pesquisa no amazon.com para descobrir que este é não apenas o manual mais vendido, mas também o mais elogiado por todos os outros usuários.

Realizei o mesmo com Contabilidade. O livro mais importante sobre o tema no Brasil é o famoso ‘Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações da Fipecafi’. E a obra mais vendida nos EUA é o ‘Accounting’ de Carl Warren. Estes quatro livros foram comparados nos mínimos detalhes na elaboração da obra.

6. Um aspecto particularmente útil no seu dicionário são os exemplos dados para ilustrar quando/como um determinado termo deve ser usado. Isso foi o resultado de sua própria pesquisa durante trabalhos de tradução?

Claro! Outro recurso importante é a prática diária de tradução. Todavia, no dia-a-dia, nós tradutores não temos tempo para investigar e pesquisar nos mínimos detalhes cada novo termo ou expressão. O que faço então é manter um arquivo do MS Word que chamo de ‘Rascunho’.

Copio e colo neste arquivo todos os novos termos e expressões que encontro nos trabalhos que realizo. E de tempos em tempos fecho minha agenda para trabalhos externos e passo a limpo este rascunho, acrescentando centenas de novos verbetes e expressões no Dicionário, buscando sempre referências bibliográficas para corroboração.

Outras excelentes fontes de pesquisa, que recomendo, são a revista The Economist e o jornal Valor Econômico. Todo dia leio algum artigo e copio e colo no arquivo de rascunho novos termos e expressões de Economia.

Outras fontes muito importantes são os Informativos de Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. Leio-os semanalmente para buscar novas expressões jurídicas. E busco sempre comparar com os informativos de jurisprudência da Suprema Corte dos Estados Unidos, publicados no site FindLaw.com.Dicionário Marcílio Moreira de Castro

Outra fonte importante de informações para o Dicionário são os vários e-mails que recebo diariamente de tradutores de todas as partes com dúvidas sobre tradução jurídica. Sempre respondo as questões e muitas delas depois são acrescentadas ao Dicionário. Meu e-mail é This e-mail address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it e todos os colegas tradutores da ATA são muito bem vindos a escrever.

7. Que dicas você daria para quem não está acostumado a fazer traduções jurídicas, mas de repente se defronta com esse tipo de documento?

Não se intimide diante do ‘juridiquês’. Muitas vezes uma frase empolada pode ser traduzida de forma simples. Por exemplo, recebi um e-mail de uma tradutora há poucos dias perguntando como poderia traduzir a frase: ‘O autor se enquadra na hipótese legal de miserabilidade’. A melhor tradução é muito simples: ‘The plaintiff is legally poor’.

8. Você está trabalhando em algum outro dicionário ou tem alguma previsão de uma próxima edição?

Será publicada a tradução que realizei de um livro de quase 1.000 páginas abordando o Direito Inglês. Foi uma ótima experiência, em que pude me aprofundar bastante no Direito Britânico. Também estou realizando muitas palestras pelo Brasil sobre tradução jurídica.

Além disso, meu rascunho de novos termos e expressões já contém mais de 400 páginas, que precisam ser passadas a limpo e incluídas no Dicionário. Pretendo lançar uma nova edição a cada três anos. A atual é de 2010, quem sabe a próxima não vem em 2013?

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Canto Legal

LATIM NO DIREITO

Expressões, impressões, aforismos e desaforismos

Enéas Theodoro Jr.

(Overheard at a San Diego restaurant)

Multilingual group of interpreters: We’re working at the international policemen’s conference…

Waitress: So you guys must speak Pig Latin !

Faz vários anos, assisti a palestra de um renomado legal translator de italiano cujo tema tratava da versão de documentos judiciais para o inglês. Duas coisas ficaram gravadas na memória. Primeiro, a ocorrência dos mesmos falsos cognatos, problemas e dilemas que encontramos em nossas próprias versões de documentos brasileiros, em virtude da semelhança não só entre os idiomas, mas também entre o ordenamento jurídico brasileiro e o italiano. Segundo, o comentário sardônico do palestrante à sua plateia de que “it may come as a surprise to you, but American lawyers don’t speak Latin…”

Com efeito, expressões e termos latinos são importantes nas razões e fundamentos de peças processuais e decisórios brasileiros, não se prestando apenas a florear o já (ou pseudo-) erudito linguajar do autor, como pensam alguns. Fumus boni iuris (likelihood of a lawful right) e periculum in mora (danger in delaying) são argumentos rotineiros para pedir medida liminar ou cautelar. Seria, por assim dizer, algo análogo a um advogado americano estar showing the threat of (feared or likely) irreparable harm.* Então, devemos traduzir mais ao pé da letra (ao “pé de ouvido”) ou exercer certas liberalidades? Dilema comum. Solução? Provavelmente dependerá do contexto geral e da finalidade específica da obra traduzida e existe, sempre, como último baluarte, inserir o próprio termo ou uma explicação entre colchetes.

Trata-se do caso de affectio societatis, conceito importante na formação e dissolução de sociedades ou na caracterização de uma sociedade irregular (ou de fato ou sem registro ou em comum, ou seja, implied partnership ou unincorporated partnership) em contrapartida a uma sociedade regular (ou constituída ou com registro, ou seja, organized or incorporated partnership). Assim, convém incluir disposition toward partnership―ou definição sucinta semelhante ― entre colchetes ao lado do termo latino (ou vice-versa).

Sem dúvida, determinadas expressões ou termos latinos são mais comuns em um ordenamento jurídico do que no outro. Prima facie (à primeira vista, sem maior exame), em geral qualificando provas, como em prima facie evidence, ocorre bem mais nas peças processuais americanas, mas não constitui raridade nas brasileiras. Por outro lado, locus standi ocorre mesmo em latim, no Direito americano, em referência a standing ― legitimidade processual ― que pode tanto ser standing to sue (legitimidade ativa) como standing to be sued (legitimidade passiva). Essa ocorrência não é comum no Direito brasileiro. Outro exemplo típico é affidavit, simplesmente declaração sob juramento em português, lembrando que, nesse caso, o declarante é affiant em inglês. In re (no sentido de “nos autos de” ou in the matter of) aparece muito no início de sentenças (judgments) americanas, mas não das brasileiras. Nesta esteira, vale mencionar mens rea (guilty mind, literalmente, ou criminal intent), que em português se diz apenas dolo (em sentido penal).

Aqui, um parêntese e alerta: ex parte, no direito anglo-saxão, tem seu correspondente brasileiro em inaudita altera pars, ou seja, quando não se ouve a parte contrária em juízo. São mais duas expressõezinhas marotas que fazem fila na entrada do infindável armazém de armadilhas da tradução.

Entre tantos outros, temos muitos casos compartilhados pelos dois países: forum non conveniens (exceção de incompetência – plea for change of venue, plea of privilege (Texas), objection to venue); ad causam (dos autos, nestes autos – in this case, in the case hereunder ou apenas hereunder); juízo ou tribunal ad quem e a quo / court ad quem and court a quo; sociedade alter ego e alter ego company; exequatur; caveat emptor, etc.

Também existem muitas curiosidades, tais como bonus, bonificação e bônus, ilustrando desde estrangeirismos ou barbarismos até influências linguísticas (o tempora o mores!) e indicia, termo útil à tradução e existente no Direito americano, significando indícios (signs, indications and circumstances, hence circumstancial evidence).

Finalizando, o ilustre colega fluente no idioma de Dante ― “forse” ― estaria se referindo mais àqueles termos que nunca devem ser mantidos em latim, tais como rectius, no sentido de corrigenda aplicada a si próprio (it could be rendered simply as “better yet” or something of the sort) ou àquelas expressões que são verdadeiros brocardos ou aforismos e fariam qualquer advogado americano matutar, lá com seus botões, se seus colegas brasileiros teriam todos sido seminaristas. Senão vejamos:

Dura lex sed lex – the law is harsh, but it’s the law.

Pacta sunt servanda – agreements are to be abided by.

Ignorantia iuris non excusat – ignorance of the law is no excuse.

Iura novit curia – the court knows the law.

Todos esses brocardos são velhos conhecidos da advocacia brasileira e nela empregados corriqueiramente. Portanto, cabe ao tradutor determinar como proceder em tais situações. Infelizmente, precisei sair da palestra em questão antes que o nobre colega descortinasse sua solução pessoal para os dilemas…

 


* Interessante observar que no Direito brasileiro a expressão correspondente é “dano de difícil reparação”. Quem disse que o brasileiro não é objetivo? Ou seja, é difícil, mas… com uma indenização polpuda, até que dá pra reparar o dano…

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